In-determinável, 2020 (Vista da instalação)

Fotos: Ivan Padovani

In-determinável

 

“O espaço concreto foi extraído das coisas. Elas não estão nele; é ele que está nelas”. (Henri Bérgson).

 

Por três meses, Gustavo Aragoni ocupou uma sala comercial no Edifício Vera, no triângulo histórico. Nessa sala depositou diferentes objetos que encontrou em suas caminhadas pela cidade – eram materiais aleatórios, tais como, plástico, espuma, barbante, madeira, lonas, papéis, cordas, insumos de construção civil, lixo, entre outros. Para alguns, são coisas desprovidas de qualquer fascínio. Para outros, são objetos que marcam a experiência do contemporâneo. Isto porque são acidentais e conectados à vida. Tudo o que entrou, jamais saiu. O lugar foi tomado pelos resquícios da cidade. O artista tornou-se um colecionador de detritos; a sala um depósito de acúmulos ordinários.

Onde está a arte nesse processo de ocupação? Está na coleta de resíduos da cidade? Não tão somente! Nesse espaço, o artista rasgou, cortou, dispôs dos objetos; escreveu mensagens, manchou as paredes e, em todas as ações, se relacionou com aquelas materialidades (a do espaço e a das coisas). Foram performances, algumas vezes, violentas, que impuseram o corpo do artista sobre os materiais. Na interação corpo-objeto, a arte emergiu abarrotada de sentimentos e (res) sentimentos; o espaço conteve tudo isso. A intervenção do artista e os destroços dos objetos, de fato, ocuparam a antiga sala de escritório. Tem-se, então, do ordenamento do mundo corporativo ao caótico “estado de arte”, o reflexo do espaço nas coisas.

Mas, o que se vê agora? A observação da memória do instante efêmero da arte. As marcas nas paredes e as sobras dos objetos, onde nem tudo é o que parece (o pó branco ao chão não é cal, mas sim farinha de trigo) são reminiscências que dão o índice que algo ali aconteceu; que a instalação sofreu severa intercessão do artista e hoje está aberta à interação do público. Sensação confirmada pela série de registros fotográficos que mostram o processo e as performances, como por exemplo, em Exercícios para decompor um corpo no. 1, 2 e 3, ou, ainda, Estudos para (des) configurar – trabalhos nascidos da ocupação, entre agosto e outubro de 2020 – uma experiência que, ao final, une espaço, objetos, corpo (do artista e do público), processo, memória e vida.

 

Alecsandra Matias de Oliveira

Doutora em Artes Visuais pela ECA USP (2008).

Autora do livro Schenberg: Crítica e Criação (EDUSP, 2011).

For three months, Gustavo Aragoni inhabited a commercial room in Edifício Vera, located in the historic triangle. In this room he placed different objects that he found on his walks through the city - they were random materials, such as plastic, foam, string, wood, tarpaulins, papers, ropes, construction supplies, garbage, among others. For some, they are things without any fascination. For others, they are objects that mark the experience of the contemporary. This is because they are accidental and connected to life. Everything that entered, never left. The place was taken over by the remains of the city. The artist became a collector of fragments, the room a deposit of ordinary accumulations.

Where is the art in this process of occupation? Is it in the process of collecting waste from the city? Not only that! In that space, the artist ripped, cut, disposed of the objects; he wrote messages, stained the walls and, in all actions, related to those materialities ( of the space and of the things). It was sometimes violent performances that enforced the artist's body on the materials. In the body-object interaction, art emerged full of feelings and (re) feelings; the space contained it all. The artist's intervention and the wreckage of objects, in fact, occupied the old office room. There is, then, from the ordering of the corporate world to the chaotic “state of the art”, the reflection of space in things.

Yet, what is observed now? The memories’ reflexion of the ephemeral instant of the art. The marks on the walls and the remains of the objects, where not everything is as it seems (the white powder on the floor is not lime, but wheat flour) are reminiscences that give the impression that something happened there; that the installation suffered severe intercession by the artist and is now open to public interaction. Sensation confirmed by the series of photographic records that show the process and the performances, as for example, in Exercises to decompose a body no. 1, 2 and 3, or, yet, Studies to (dis) configure - works produced throughout the occupation, between August and October 2020 - an experience that, in the end, bring together space, objects, body (of the artist and public's), process, memory and life.