In-determinável

 

“O espaço concreto foi extraído das coisas. Elas não estão nele; é ele que está nelas”. (Henri Bérgson).

 

Por três meses, Gustavo Aragoni ocupou uma sala comercial no Edifício Vera, no triângulo histórico. Nessa sala depositou diferentes objetos que encontrou em suas caminhadas pela cidade – eram materiais aleatórios, tais como, plástico, espuma, barbante, madeira, lonas, papéis, cordas, insumos de construção civil, lixo, entre outros. Para alguns, são coisas desprovidas de qualquer fascínio. Para outros, são objetos que marcam a experiência do contemporâneo. Isto porque são acidentais e conectados à vida. Tudo o que entrou, jamais saiu. O lugar foi tomado pelos resquícios da cidade. O artista tornou-se um colecionador de detritos; a sala um depósito de acúmulos ordinários. Onde está a arte nesse processo de ocupação? Está na coleta de resíduos da cidade? Não tão somente! Nesse espaço, o artista rasgou, cortou, dispôs dos objetos; escreveu mensagens, manchou as paredes e, em todas as ações, se relacionou com aquelas materialidades (a do espaço e a das coisas). Foram performances, algumas vezes, violentas, que impuseram o corpo do artista sobre os materiais. Na interação corpo-objeto, a arte emergiu abarrotada de sentimentos e (res) sentimentos; o espaço conteve tudo isso. A intervenção do artista e os destroços dos objetos, de fato, ocuparam a antiga sala de escritório. Tem-se, então, do ordenamento do mundo corporativo ao caótico “estado de arte”, o reflexo do espaço nas coisas. Mas, o que se vê agora? A observação da memória do instante efêmero da arte. As marcas nas paredes e as sobras dos objetos, onde nem tudo é o que parece (o pó branco ao chão não é cal, mas sim farinha de trigo) são reminiscências que dão o índice que algo ali aconteceu; que a instalação sofreu severa intercessão do artista e hoje está aberta à interação do público. Sensação confirmada pela série de registros fotográficos que mostram o processo e as performances, como por exemplo, em Exercícios para decompor um corpo no. 1, 2 e 3, ou, ainda, Estudos para (des) configurar – trabalhos nascidos da ocupação, entre agosto e outubro de 2020 – uma experiência que, ao final, une espaço, objetos, corpo (do artista e do público), processo, memória e vida.

 

Alecsandra Matias de Oliveira

[English]

"Concrete space has been extracted from things. They are not in it; it is he who is in them." (Henri Bérgson).

For three months, Gustavo Aragoni occupied a commercial room in the Vera Building, in the historic triangle. In this room he deposited different objects that he found on his walks around the city - they were random materials, such as plastic, foam, string, wood, canvas, paper, rope, construction supplies, garbage, among others. For some, these are things devoid of any fascination. For others, they are objects that mark the experience of the contemporary. This is because they are accidental and connected to life. Everything that went in, never came out. The place was taken by the remnants of the city. The artist has become a collector of detritus; the room a depository of ordinary accumulations. Where is art in this occupation process? Is it in the collection of the city's waste? Not only! In this space, the artist tore, cut, arranged the objects; wrote messages, stained the walls and, in all actions, related to those materialities (that of space and of things). They were performances, sometimes violent, that imposed the artist's body over the materials. In the body-object interaction, art emerged crammed with feelings and (re)feelings; the space contained it all. The artist's intervention and the debris of the objects, in fact, occupied the old office room. We have, then, from the ordering of the corporate world to the chaotic "state of art", the reflection of space in things. But what do we see now? The observation of the memory of the ephemeral instant of art. The marks on the walls and the leftovers of objects, where not everything is what it seems (the white powder on the floor is not lime, but wheat flour) are reminiscences that give the index that something happened there; that the installation suffered severe intercession by the artist and today is open to public interaction. A feeling confirmed by the series of photographic records that show the process and the performances, as for example in Exercícios para decompor um corpo no. 1, 2 e 3, or, yet, Estudos para (des) configurar - works born from the occupation, between August and October, 2020 - an experience that, in the end, unites space, objects, body (of the artist and the audience), process, memory and life.