tra(u)ma, casarão brasil, são paulo, 2021   tra(u)ma

gustavo aragoni
"gustavo aragoni"

Na mitologia grega, Caos é a mais antiga forma de consciência divina, a partir da qual surgiram todos os outros deuses e o próprio universo. Amorfo e indefinível, tudo o que foi criado a partir dele se deu através de múltiplas divisões disto que era, a um só tempo, tudo enada, e já continha todos os elementos para que se formasse o Cosmos (que significa ordem). A partir das cisões deste todo indiferenciado é que foram se organizando os planetas, o céu, os mares, os reinos animal, vegetal e mineral, e a humanidade. A ocupação de Gustavo Aragoni no Casarão guarda, dadas as devidas proporções, certa analogia com este mito. Quando chegou ao local, desocupado há tempos, encontrou aqui elementos abandonados como cadeiras, alguns armários, um vaso de planta ainda com terra. Sem uso, essas coisas se apresentavam como um nada, sem significados definidos. Ao longo de dois meses, o artista imergiu na relação com os objetos e o ambiente numa exploração sem planejamento e, portanto, sem um resultado determinado no horizonte. Outros itens descartados trazidos de derivas pelas ruas próximas chegaram e foram incorporados ao “acervo de interesses sensoriais” de Aragoni. Essas coletas são randômicas, mas afetivas, quase como se os materiais é que escolhessem o artista. Seu método é intuitivo, tributário da filosofia de Bergson, que propõe que o conhecimento das coisas resulte da experiência no presente, sem a mediação de conceitos e/ou análises. Observar, tocar, amassar, rasgar são assim algumas das ações que surgem neste processo de entendimento das características de cada material e de como ele se aproxima ou se distingue dos outros neste microuniverso. Alguns destes gestos enérgicos de dissecar a matéria evocam a violência de um trauma. Mas então, pouco a pouco, vão sendo tramados desenhos espaciais e agrupamentos compositivos, e o ambiente vai ganhando algum nexo. Mas, atenção: não espere encontrar narrativas lineares ou explicações. O que se apresenta nestes espaços é um vestígio de muitas ações e não um final (melhor seria chamar de intervalo) passível de ser interpretado com os instrumentos usuais da razão. A razão, aliás, quando ameaça intrometer-se na experiência, é rechaçada pelo artista através do procedimento de escrever palavras ou frases de trás para a frente. Mesmo a cidade, que teima em tentar impor seu regramento do tempo com luzes e barulhos, está mantida do lado de fora. As definições estão abolidas e aqui só existe o agora. Talvez nem seja adequado dizer “aqui” sobre este “não lugar”. Já o “agora”, esta ideia eternamente inapreensível, pode caber nesta proposição de que nada, na verdade, é - tudo está.​ Sylvia Werneck

In Greek mythology, Chaos is the oldest form of divine consciousness, from which all the other gods and the universe itself emerged. Amorphous and undifferentiated, everything that was created from it occurred through multiple divisions of this thing that was, at the same time, everything and nothing, and already contained all the elements to form the Cosmos (which means order). From the divisions of this undifferentiated whole, the planets, the sky, the seas, the animal, vegetal and mineral kingdoms, and humanity were organized. Gustavo Aragoni's occupation of the Casarão keeps, given the due proportions, a certain analogy with this myth. When he arrived at the place, unoccupied for some time, he found abandoned items such as chairs, some cupboards, and a plant pot with soil still in it. Without use, these things presented themselves as nothing, without defined meanings. Over the course of two months, the artist immersed himself in the relationship with the objects and the environment in an unplanned exploration and, therefore, without a determined result on the horizon. Other discarded items brought from drifts through the nearby streets arrived and were incorporated into Aragoni's "collection of sensory interests". These collections are random, but affective, almost as if the materials chose the artist. His method is intuitive, tributary of Bergson's philosophy, which proposes that the knowledge of things results from experience in the present, without the mediation of concepts and/or analysis. Observing, touching, kneading, tearing are some of the actions that arise in this process of understanding the characteristics of each material and how it approaches or distinguishes itself from others in this micro-universe. Some of these energetic gestures of dissecting matter evoke the violence of a trauma. But then, little by little, spatial designs and compositional groupings are brought into play, and the environment is given some sense of purpose. But beware: don't expect to find linear narratives or explanations. What is presented in these spaces is a trace of many actions and not an ending (it would be better to call it an interval) that can be interpreted with the usual instruments of reason. Reason, by the way, when it threatens to intrude into the experience, is rebuffed by the artist through the procedure of writing words or phrases backwards. Even the city, which stubbornly tries to impose its regulation of time with lights and noise, is kept outside. Definitions are abolished, and here only the now exists. Perhaps it is not even appropriate to say "here" about this "non-place. But the "now," this eternally inapprehensible idea, may fit this proposition that nothing, in fact, is - everything is being. Sylvia Werneck

 

créditos
espaço: casarão brasil

apoio, produção, divulgação : lona galeria                 
texto crítico 
: sylvia werneck
registros do processo (visual e sonoro): clara de cápua,
colaboração divulgação
: marmirolipr  
registros da exposição
: ivan padovani

credits
location: casarão brasil
support, production, promotion: lona galeria
text: sylvia werneck
photographic & sound records (working process): clara de cápua
collaboration on promotion: marmirolipr
photographic records (exhibition): ivan padovani